Posts Tagged ‘Steve Jobs’

Como o TED me fez plantar árvores

TED

Gosto de assistir aulas e palestras quando são bem ministradas – e rápidas. Para quem gosta de ler e estudar sobre técnicas de apresentação, já deve ter escutado ou assistido as palestras do TED. E neste post vou falar sobre o TED, técnicas de apresentação, livros sobre o tema e como tudo isso misturado me fizeram plantar árvores. Sim, plantar árvores!

O TED (Technology, Entertainment, Design) é uma série de conferências e palestras destinadas à disseminação de ideias, sem fins lucrativos e são realizadas ao redor do mundo pela Fundação Sapling. Com slogan “ideias que merecem ser disseminadas”, os encontros iniciaram em 1984 no Vale do Silício, mas só em 1990 virou conferência global.

chris andersonDe lá para cá o TED ganhou muita popularidade e foi impulsionada quando Chris Anderson assumiu o evento, em 2001 – até hoje ele é curador e apresentador do evento. A popularização foi tanta, que hoje em dia é comum encontrar vídeos do TED no Netflix e nas TVs de canal pago.

Desde então diversos Prêmios Nobel e pessoas influentes tem palestrado: Bill Gates, Al Gore, Richard Dawkins, Philippe Starck, Gordon Brown e assim por diante. Em 2009 o TED criou o TEDx, programa de eventos locais, organizados de forma independente, que reúne pessoas para dividir uma experiência nos moldes do TED. No Brasil já foram realizados centenas de eventos TEDx. As palestras ganharam tanta notoriedade que, com mais de vinte mil voluntários, traduziram as palestras para 112 línguas diferentes.

Para assistir ao TED Global, o candidato precisa se inscrever no site e preencher um extenso formulário com perguntas do tipo:

  • Quais foram suas maiores conquistas?
  • O que lhe dá paixão?

E assim por diante. São selecionadas apenas pessoas que podem contribuir de alguma forma com a comunidade, por meio de seu networking, influência e energia. Depois de todo esse “processo seletivo”, o candidato tem que desembolsar quase US$8.000. Existe um “atalho” para participar do evento pagando a módica quantia de US$17.000 – ou US$150.000 – para entrar no grupo de doadores ou “patronos” do evento – mesmo assim há um processo seletivo. Estes valores se referem ao evento de 2016, realizado em Vancouver/Canadá, e o tema foi “Dream”.

TED 2016 - "Dream"

TED 2016 – “Dream”

Há uma parcela de convites reservadas – de graça – para jovens talentos e pessoas influentes em países em desenvolvimento. Além disso, existem cotas de patrocínio para algumas empresas terem acesso aos formadores de opinião presentes nos eventos.

Chris Anderson é um gênio! Segundo suas próprias palavras:

Pegamos dinheiro de alguns ricos da Califórnia e gastamos com ideias no mundo inteiro.

Apesar da frase acima ter sido dita em tom de brincadeira, Chris conseguiu fazer um modelo de negócio extremamente lucrativo. Já deve ter ultrapassado a marca dos US$50 milhões arrecadados por ano (em 2012 foi US$ 44,1 milhões). E o TED pertence à empresa Sapling Foundation, uma fundação privada sem fins lucrativos. E isso…evidentemente, é motivo de muita crítica.

Isso até gerou a necessidade do TED criar uma página sobre isso. Mas quero dar foco neste texto às apresentações – mais especificamente: às técnicas de apresentação. Já foi tema desse blog dois posts sobre técnicas de apresentação: um sobre Steve Jobs e outro sobre a empresa brasileira SOAP, especializada em apresentações profissionais.

As “talks” (como são chamadas as palestras) são limitadas a dezoito minutos – ou menos. Todo palestrante tem domínio sobre o tema e treina exaustivamente a fala, para que a apresentação seja perfeita. E todas palestras do TED são perfeitas!

As técnicas usadas no TED são tão famosas e discutidas no meio, que começaram a aparecer diversos especialistas no assunto e até livros sobre o tema. E aqui gostaria de citar três exemplos:

Chris Anderson: o próprio “chefe” do TED lançou um guia oficial de como falar em público. Segundo o autor, o conteúdo do livro ensina a criar falas curtas que mostre empatia, entusiasmo e espalhe conhecimento, para compartilhar sonhos.

Camine Gallo: escritor, jornalista e famoso coach de comunicação nos EUA. Em seu novo livro “Talk Like TED”, o autor desconstrói as estratégias e técnicas utilizadas pelos palestrantes mais populares do evento, revelando nove segredos dessas apresentações e cria um passo-a-passo de como montar uma apresentação que seja envolvente, persuasiva e memorável.

O mesmo autor fez a desconstrução das palestras do Steve Jobs, no livro “The Presentation Secrets of Steve Jobs – How to Be Insanely Great in Front of Any Audience” – este livro já foi tema deste blog.

Nancy Duarte: escritora e CEO da Duarte Design ela é referência no Vale do Silício na preparação dos “pitch” das startups para investidores. Seu livro “slide:ology: The Art and Science of Creating Great Presentations” é um dos mais famosos sobre o tema (ela é referenciada no livro da SOAP, por exemplo) e tem uma palestra “revelando” a estrutura de grandes falas no TED.

Existem dezenas de vídeos sobre o tema no próprio site do TED, que listo no final deste post, mas gostaria de destacar duas.

São as mais engraçadas e sem conteúdo algum que tratam exclusivamente das técnicas:

Como parecer inteligente nas palestras do TEDx

 

Mentiras, malditas mentiras e estatísticas

 

Quando estudava sobre o tema, lendo os textos da Nancy Duarte, descobri que ela ajudou Al Gore no documentário “An Inconvenient Truth”. Sempre tive preguiça para assistir esse documentário, mas resolvi dar uma chance se – e somente se – o documentário fosse realmente uma palestra e não um filme como qualquer outro documentário.

 

aninconvenienttruthposter

E realmente era uma palestra! Fiquei impressionando com o domínio das técnicas utilizadas pelo palestrante durante todo documentário. Uma aula de técnicas do começou ao fim. Duas coisas me chamaram atenção:

Treino

Al Gore ministrou a mesma palestra mais de mil vezes. Isso que é treino heim?! Os livros citados acima reforçam a necessidade de treinar e ensaiar exaustivamente a palestra. Mas quanto de nós treinamos para valer? Tipo: mil vezes??!! É um número impressionante. Isso remete ao texto de Malcolm Gladwell, que defende a tese de que sorte só e Sorte, com S maiúsculo, se for combinada com muito suor e trabalho árduo – ele até diz que são necessárias 10.000 horas de trabalho para a “sorte” te fazer uma pessoa notável. E Al Gore é uma pessoa notável.

Conteúdo

Sim, o conteúdo do documentário é muito bom. A forma como Gore apresentou fez toda diferença. Nos livros citados acima, os autores reforçam a necessidade de ter uma história para contar. Ou seja, ter um bom conteúdo. E o que Al Gore apresentou é uma história tão relevante e tão importante que é impossível ficar incólume ao documentário.

Não sabia que antes de ser vice-presidente dos EUA e concorrer ao cargo máximo daquele país, Al Gore era ativista e brigava há anos, no congresso, para emplacar leis de proteção ambiental e redução das emissões de poluentes, afim de reduzir a acelerada taxa de aquecimento global.

E advinha o que aconteceu?

No final de semana seguinte plantei 20 árvores frutíferas! Laranja, mexerica, limão, manga, abacate e por aí vai.

Isso não vai fazer diferença no mundo, mas fez diferença para mim.

Além de ser uma boa história para contar, acho que me tornei mais consciente ecologicamente falando. Comecei a valorizar e contribuir com a coleta seletiva e a compostagem realizada no condomínio em que moro. Pequenas ações como esta, se realizadas por todo mundo, podem fazer diferença.

Plantando árvores jr02

árvores plantadas

Fico me imaginando velhinho, com meus setenta e tantos anos de idade, contando estas histórias para meus netos e bisnetos, comendo frutas aos pés das árvores que ajudei a plantar.

E o mais legal foi contar com a ajuda do meu tio Antônio, Tina e Claudia. Parceiros desde sempre! Cheers!

Junior e Antônio

E você, já plantou uma árvore em sua vida?


 

Aqui vai uma lista de palestras e dicas do próprio TED, sobre como melhorar sua fala em público:

Gostou deste post? Deixe um comentário.

Vou falar em público. E agora?

soap-falar-em-publico-2

A ansiedade, o nervosismo e o medo são sensações que qualquer palestrante já vivenciou às vésperas de uma palestra. Com o passar do tempo e com a experiência, aprendemos a administrar essas sensações. Mas muito mais do que isso: aprendemos técnicas de apresentação.

O mais importante em uma palestra é a história que você vai contar – leia-se aqui: conteúdo. Entretanto, a forma como você “entrega” a palestra faz toda a diferença. E as técnicas tem como objetivo cobrir 3 grandes áreas em uma apresentação:

  • Roteiro
  • Visual
  • Apresentador

Existem diversos cursos e livros sobre o assunto – as palestras do Steve Jobs já foi tema desse blog – mas gostaria de dedicar este post à SOAP.

SOAP (Acrônimo de “State of The Art Presentations”) é uma consultoria brasileira de comunicação especializada em apresentações corporativas. A história da criação dessa consultoria é incrível, mas o que chama atenção é a quantidade de apresentações criadas (mais de 12 mil), número de países atendidos (mais de 20) e portfólio de produtos (apresentações corporativas, pitch de vendas, apoio visual e treinamento do apresentador).

Em 2011 a SOAP lançou o seu livro “Super Apresentações – Como vender ideias e conquistar audiência”, detalhando sua técnica de criação das apresentações.

Tudo começa no roteiro!

O primeiro passo é fazer um diagnóstico relacionado à apresentação:

  • Com quem vou falar?
  • Qual o perfil da audiência?
  • Qual assunto será abordado?
  • Qual é meu objetivo com essa apresentação?
  • Qual tempo disponível?

E assim por diante.

soap-roteiro-visual-apresentador

O segundo passo é escrever o roteiro usando um ou mais recursos narrativos como a metáfora, o suspense, a surpresa, o drama, o humor etc. É importante definir a mensagem principal, o slogan, a estrutura do raciocínio, inserção de conteúdo e adequação da linguagem. E aqui está uma das grandes qualidades do livro: além de ser visualmente muito bonito, ele mostra exemplos desses recursos narrativos e ainda dá 10 dicas importantíssimas que devem ser levadas em consideração em um roteiro.

O último passo dessa etapa é dividir o conteúdo em pequenos trechos, para que a apresentação tenha 3 “atos”, como se fosse um filme: início, meio e fim. No mundo das apresentações, a SOAP chama estes três atos de “Um bom começo”, “O corpo e a sustentação da apresentação” e a “Conclusão”.

Na segunda parte do livro, constituída por dois capítulos, os autores abordam a questão da criação visual e da identidade visual. A parte da criação visual ensina como dividir o roteiro em slides, as informações que estarão presentes, os tipos de elementos que serão usados (ex: imagens, ícones, desenhos, fotos, dados etc). Já o capítulo da identidade visual aborda a paleta de cores, fontes, linhas, formas, elementos gráficos etc.

A terceira parte do livro aborda o apresentador. É fundamental ter domínio do roteiro e a interação com o apoio visual. E aqui eles reforçam a necessidade do treino. É necessário treinar exaustivamente a fala até todo o roteiro se tornar natural. É importante ter a visão macro de toda apresentação, conhecer slide a slide prestando atenção ao timing. Mas mais do que isso: é importante treinar a apresentação sem o apoio visual. Se conseguir apresentar sem ter apoio visual, pronto! Você está “quase” apto a encarar seu público. Para ter certeza que está pronto, faça o último ensaio gravando áudio ou vídeo. Seu olhar crítico ou a avaliação por terceiros podem te ajudar a fazer os últimos ajustes.

O apresentador deve ainda ficar de olho no relógio, prestar atenção na entonação, volume, clareza da fala, ênfase das palavras, nas pausas, na velocidade do discurso e no tom. A espontaneidade e o improviso devem ser usados como aliados. Por fim, o apresentador não deve deixar de olhar para a audiência e reservar tempo para perguntas e respostas ao final da apresentação, lembrando que é importante não se prolongar nas respostas, atuar como mediador quando necessário, saber lidar com perguntas difíceis etc.

Só depois de abordar essas três grandes áreas, a SOAP fala sobre o PowerPoint.

Sim, meu amigo (a)! PowerPoint não deveria ser o ponto de partida das apresentações. A SOAP até brinca com o tema questionando se ele é vilão ou herói.

soap-DeathbyPowerPoint

O livro ainda lembra o triste episódio em que o ônibus espacial Columbia se desintegrou, após tentar entrar na atmosfera terrestre, matando 7 astronautas, em fevereiro de 2003. Motivo: problemas de comunicação pelo uso excessivo de PowerPoint.

Seriously?

Sim! Edward Tufte, professor da Universidade Yale, escreveu diversos artigos contra o PowerPoint, acusando que o programa dá foco aos elementos gráficos em detrimento ao conteúdo. Nesse post da Wired ele demoniza o PowerPoint. No episódio do Columbia, enviado à Nasa, Tufte detalhou os registros dos dados desde o lançamento do ônibus, quando uma peça da nave se soltou. Foi aí que a Nasa descobriu que dados importantes foram simplificados para caber nos slides. Pode??!! Tufte sugere que a boa e velha planilha seja usada na apresentação de dados.

Super Apresentações

Super Apresentações

Super Apresentações – Como Vender Ideias e Conquistar Audiências

Sócios-fundadores da SOAP, a maior empresa de apresentações do Brasil, Eduardo Adas e João Galvão revelam a metodologia que utilizam para criação de apresentações no estado da arte, capazes de encantar audiências, transmitir conceitos com propriedade e atuar em prol da adesão desejada pelo apresentador.

Compre o livro “Super Apresentações – Como Vender Ideias e Conquistar Audiências na Saraiva.

 

Elon Musk – um soco no estômago das indústrias aeroespacial, automotiva e de energia

Os avanços tecnológicos dos anos 60 foram fortemente pautados pela NASA durante a corrida espacial. Na década seguinte, tivemos o boom da eletrônica atingindo o mercado das grandes massas – as TVs em cores, por exemplo. Na década de 80 tivemos o boom das automações em escala industrial, início da informatização, videogames, fitas cassete, gravadores e reprodutores VHS. Nos anos 90 veio o boom do software com a popularização dos computadores, MS-DOS, Windows e globalização (leia-se aqui: terceirização). Nos anos 2000 o boom da Internet, produtos e serviços digitais – e aqui estamos falando basicamente de software.

A tecnologia ao longo dos anos

A tecnologia ao longo dos anos

O novo milênio trouxe uma aproximação entre hardware, software e design. O maior expoente é a Apple, com o Steve Jobs apresentando ao mundo os novos MACs e o iPod. Isso foi um marco para indústria de design: design de hardware, design de software e design de usabilidade. Na esteira vieram o iPhone, iTunes, iPad e uma infinidade de produtos que empurrariam as fronteiras da evolução tecnológica ao limite.

Steve Jobs promoveu uma revolução em 3 indústrias distintas: na de computadores, na de telefonia e de entretenimento.

Desde então, o mundo nunca mais seria o mesmo.

Hardware e Software ganhariam o mesmo nível de importância e preocupação nos novos projetos e isso foi tremendamente popularizado com o surgimento do Arduíno, Rasberry Pi e outras tantas iniciativas destinadas a ensinar e facilitar a integração entre o mundo físico (hardware) com o mundo lógico (software). E começaram a surgir produtos que até então faziam parte de livros de ficção científica: drones, Nest, carros autônomos etc.

O Vale do Silício é o berço de inovações nos Estados Unidos. De lá surgem Yelps, Facebooks, Squares, Twitters, Instagrams, Googles e uma infinidade de empresas da nova economia – e entre elas a Zip2 e a Paypal, de um sul africano erradicado nos EUA, chamado Elon Musk.

Elon Musk

Elon Musk

Musk sofria bullying quando criança, pois era um nerd aficionado por leituras e foguetes. Com uma infância sofrida, conseguiu “fugir” para os Estados Unidos para estudar. Antes deu uma parada no Canadá, trabalhando em uma fazenda, até que chegou a Stanford, para cursar o famoso curso “Sistemas Simbólicos” – curso que integra ciência de computação, design, psicologia e filosofia. Já passaram por esse curso Marissa Mayer (CEO do Yahoo!), Mike Krieger (Co-founder do Instagram), Reid Hoffman (CEO do Linkedin), Scott Forstall (SVP do iOS da Apple), Chris Cox (VP do Facebook) entre outros.

Sua primeira startup – a Zip2 – era uma junção primitiva do Google Maps com Yelp (ambas ainda não existiam). Musk concebeu muitas das primeiras iniciativas que mais tarde se popularizariam na Internet: diretórios, mapas e sites de mercados verticais. Em 1999 a Compaq comprou a Zip2 por 307 milhões de dólares e Musk embolsou US$ 22 milhões.

Então milionário no mundo digital, Musk investiu quase todo dinheiro na X.com, com objetivo de inovar no mundo dos Bancos Online, um mercado borbulhante com a crescente demanda de e-commerce, mas totalmente estagnado, regulamentado e moroso em termos de inovação. Acabou comprando a empresa Confinity de Peter Thiel e Max Levchin, que estava desenvolvendo o PayPal. Apesar da conturbada relação de Musk com os demais sócios, PayPal abriu capital em 2002 e logo na sequência foi comprado pelo eBay, pela bagatela de US$1,5 bilhão. Naquela ocasião, Musk embolsou mais de US$ 300 milhões.

Multimilionário, Elon Musk poderia criar outros tantos produtos de Internet, mas ele queria mais. Muito mais do que o Vale do Silício poderia lhe proporcionar em termos de Internet.

As melhores mentes da minha geração estão pensando em como fazer as pessoas clicarem em anúncios e isso é um saco – Jeff Hammerbacher.

Musk quer transformar a raça humana em uma espécie interplanetária.

Musk quer colonizar Marte.

Uma ideia um tanto quanto ousada, quanto maluca.

Queríamos carros voadores e, em vez disso, recebemos 140 caracteres – Peter Thiel.

Com objetivo de encontrar uma forma de preservar a raça humana, Musk começou a defender ferozmente a necessidade de trocar a matriz energética mundial, baseada em combustíveis fósseis, por energia limpa: a energia solar. E começou a colocar em prática sua maluquice: investiu US$100 milhões na SpaceX, US$70 milhões na Tesla e US$10 milhões na SolarCity.

A missão da SpaceX era emergir como a “Southwest Airline do Espaço” com voos low cost para colocar satélites em órbita, abastecer a estação espacial internacional (ISS) e levar o homem a Marte.

O modelo da Tesla era mais que uma afronta ao modo como as montadoras e concessionárias fazem negócio. Era uma aposta sutil no modo como os carros elétricos representam uma nova maneira de pensar o automóvel: 100% elétricos, eficientes, potentes, acessíveis, bonitos e como se fossem gadgets (um aparelho que melhorava depois de comprado, podendo ser atualizado e revisado online à distância).

A SolarCity vem com a proposta de substituir a matriz energética pela energia solar. O custo de instalação de painéis solares é altíssimo e nem sempre o investimento se pagava. A SolarCity instala de graça os painéis e o excedente é comercializado para o governo.

Por que um milionário do Vale do Silício apostou toda sua fortuna em 3 segmentos que estavam estagnados há décadas, que tinham competidores pesados e fortemente financiados pelos governos e altamente regulamentados?

E aqui vale listar alguns aspectos que colocavam Elon Musk cada vez mais na categoria “louco de carteirinha”:

Nenhuma empresa privada tinha recursos financeiros, capital humano e conhecimento técnico para levar um foguete ao espaço. Quiçá um humano. Essa indústria era dominada pela NASA com forte incentivo do governo americano e vinha perdendo espaço ano após ano para outras nações como é o caso da Rússia e da China. Veja bem: estamos falando de nações! Países! Elon queria competir com países!

A indústria automobilística americana estava estagnada há décadas e a cidade Detroit é a maior prova disso. A Califórnia nunca teve tradição na indústria automotiva e havia claramente um incentivo à utilização dos combustíveis fósseis em detrimento à energia limpa – basta olhar o tamanho e o poder de lobby da indústria bélica, da indústria militar, das empresas Shell, Exxon  etc. Todo o conflito no Oriente Médio tem uma motivação financeira por trás, não é mesmo?!

A matriz energética dos EUA se baseia no combustível fóssil (petróleo) e no gás (xisto). Todos estes setores são fortemente regulados com concessões e muitos interesses. Investir em energia limpa – especialmente energia solar – não era interessante do ponto de vista econômico e nem do político…a curto e médio prazo.

E o mais louco de tudo: ele quis construir tudo do zero, sem fornecedores externos. Ele queria competir com os chineses.

Elon faz questão de ter o máximo de controle em suas mãos: prazos, qualidade e custos. E é aficionado em custos: todas decisões são baseadas na relação “taxa de queima de capital”. Ele sabe quanto custa sua equipe e as decisões são baseadas em quanto de retorno irá trazer versus custo de produção. É comum achar caro e reprovar a compra de uma peça por US$2.000 e ao mesmo tempo aprovar um voo emergencial por US$90.000 “apenas” para entregar uma peça na ilha Kwaj, base de lançamento dos primeiros testes de foguetes – neste exemplo, o custo da equipe parada na ilha à espera da peça era maior que o custo da viagem.

Seu ritmo de trabalho era alucinante e exigia o mesmo de seus funcionários. Trabalhava de 80 a 100 horas por semana e, segundo ele, em quatro meses produzia o que qualquer um levaria pelo menos 1 ano. Isso trouxe consequências devastadoras para sua vida pessoal, para os funcionários, parceiros, investidores e em seus relacionamentos amorosos, evidentemente.

Musk pôde estabelecer metas mais agressivas do que qualquer outro executivo da história. Ele levou o modus operandi  do mundo das startups para as indústrias aeroespacial, automotiva e energia. Pensamento Lean, entrega rápida, melhoria contínua, baixo custo, melhores engenheiros, redução de burocracia, baias ao invés de salas fechadas etc.

Com muitos altos e baixos, conseguiu salvar suas empresas da falência diversas vezes. Ora por ajuda de amigos investidores (ex: Larry Page), ora por sorte (ex: ganhou uma concorrência para entregar de suprimentos da NASA para a ISS, sem mesmo ter atingido a órbita).

E Elon Musk está conseguindo entregar o que prometeu.

Apesar de nem sempre cumprir os prazos prometidos, suas empresas estão fazendo os maiores avanços que as indústrias espacial, automotiva e energética não haviam visto em décadas.

A Space X

Space X

Hoje a SpaceX é a melhor esperança dos EUA voltar a desenvolver sua capacidade de levar pessoas ao espaço. A companhia faz por si de 80% a 90% de seus foguetes, motores, equipamentos eletrônicos e outros componentes – tudo isso em solo americano. Apesar de algumas explosões, foi a primeira empresa privada a colocar um foguete em órbita.  Foi a primeira empresa privada a colocar satélites de outros governos em órbita. Foi a primeira empresa privada a abastecer a ISS no espaço. Tudo isso por um custo bem menor do que qualquer outro governo tinha.

Dragon - veículo espacial da SpaceX

Dragon – veículo espacial da SpaceX

E fez o mais incrível: conseguiu lançar um foguete, colocar satélites em órbita e pousar de pé no mesmo local onde fora lançado. Essa é uma conquista e tanto, pois mais de 95% do custo de um lançamento recai sobre o foguete que até então era descartado. O barateamento do lançamento é o primeiro passo para tornar acessível a ideia de fazer vários lançamentos durante um mês e, quem sabe, colonizar Marte. Imagine o custo de uma viagem de navio ou voo comercial se para cada viagem fosse necessário descartar o transporte utilizado. Até então era assim que a indústria aeroespacial trabalhava.

Para ter ideia de ordem de grandeza, um lançamento para a ISS girava na casa de US$1 bilhão de dólares e a SpaceX está se esforçando para trazer esse custo para casa do US$1 milhão. Uma diferença gigantesca!

É bem verdade que tem aparecido algumas empresas privadas querendo entrar neste mercado bilionário, como é o caso da Blue Origin de Jeff Bezos e a Virgin Galactic de Richard Branson, mas Musk já está bem à frente nessa corrida. Ele aspira muito mais do que turismo espacial, Musk quer colonizar Marte.

O objetivo de enviar um homem a Marte é muito mais inspirador do que aquilo que outros estão tentando fazer no espaço. É essa ideia de voltar ao futuro. Houve uma grande redução do programa espacial e as pessoas abandonaram a visão otimista do futuro que tínhamos no início dos anos 1970. A SpaceX mostra que há um caminho para voltar a esse futuro. Há um grande valor no que Elon está fazendo – Peter Thiel.

Assistir aos vídeos dos lançamentos da SpaceX no Youtube é emocionante. Dá para sentir o orgulho e vibração dos funcionários de cada etapa sendo cumprida com sucesso, a ponto de, em coro, gritarem “USA! USA! USA!”. É patriótico para eles.

A Tesla

Tesla

A Tesla, com sua missão de desenvolver um carro 100% elétrico, eficiente, bonito e potente (faz de 0 a 100km/h em menos de 4 segundos), dividiu seu objetivo em 3 fases: a primeira é tirar a ideia do papel com um carro de custo alto (acima dos US$100 mil). A segunda fase é fazer um modelo mais avançado com preços em torno de US$75mil (fase atual). E a última é fazer um carro para a grande massa ao preço de US$35 mil.

E o carro é bonito, viu?! O carro tem chassi 100% em alumínio, tem design agressivo, é inteiramente computadorizado e cheio de touch screen. Não é como os “kinder ovo” lançados pelas montadoras jurássicas, como gosta de falar Musk.

Tesla - Modelo S

Tesla – Modelo S

O proprietário tem sempre a melhor versão disponível – na Tesla não há aquela ideia de “modelo do ano” e nem aquelas revisões programadas, troca de óleo etc e tal. Assim que uma melhoria é implementada, ela já vai para as ruas. Em alguns casos, a atualização – ou revisão – é feita remotamente pela internet. Houve relatos, por exemplo, de que o limpador de para-brisa era mais veloz do que o normal. Enquanto os proprietários dos carros dormiam, a Tesla corrigiu o software e atualizou o sistema remotamente, assim como você faz com seu celular, tablet ou computador.

Elon Musk criou o equivalente automotivo do iPhone.

E mais: ao comprar o carro, o proprietário nunca mais terá que pagar por combustível. A Tesla espalhou pelos Estados Unidos postos de abastecimento de forma gratuita para seus clientes. Hoje já é possível cruzar o país de costa a costa – veja o mapa de abastecimento. A Tesla promete que 30 minutos de carregamento dá autonomia de 300km de viagem.

E adivinha como são carregadas essas baterias? Energia solar. Bingo!

A Tesla ainda desenvolveu um sistema de captura e estoque de energia solar que se assemelhava a uma geladeira e hoje está muito mais para um aquecedor a gás. Esse equipamento, chamado de Powerwall, armazena energia para carregar o carro ou até mesmo o consumo da casa, reduzindo drasticamente o custo da energia elétrica. Hoje a Tesla, em parceria com a Panasonic, está desenvolvendo o maior projeto de produção de baterias avançadas usando Li-Ion e a maior fábrica de energia solar, a Gigafactory.

Os fabricantes de automóveis precisarão de anos para produzir um concorrente real e, mesmo assim, pode ser que não venham a ter um suprimento de baterias disponível para seus veículos, pois aqui entra a terceira grande tacada de Elon.

A SolarCity

SolarCity

A SolarCity oferece instalação de painéis solares gratuitamente cobrando dos seus clientes uma porcentagem em cima da economia de consumo elétrico. O excedente é comercializado para as concessionárias do governo, responsáveis em distribuir energia. Pela primeira vez nos EUA uma empresa privada está quebrando o monopólio de geração e distribuição de energia pelo país.

É a primeira iniciativa mundial, tocada por uma empresa privada, para trocar a matriz energética por energia solar.

SolarCity panels

Painéis solares da SolarCity

Musk detém a empresa líder na tecnologia de transformar a energia solar em energia elétrica, com fins comerciais, mudando a indústria energética daquele país. Esse conhecimento é usado para evoluir e aprimorar o armazenamento e abastecimento da maior frota de carros elétricos e está revolucionando a indústria automobilística. Por fim, todas essas melhorias estão sendo alcançadas e puxadas pela maior empresa privada aeroespacial.

SolarCity é parte essencial do que pode ser chamado de “teoria de campo unificado de Musk”. Todos seus negócios estão interligados a curto e longo prazo.

É comum encontrar comparações e analogias entre Elon Musk e Tony Stark, criador humano do Homem de Ferro. Sim, parece que a ficção está imitando a realidade ou vice-versa. A propósito: Robert Downey Jr, que interpretou Stark nos cinemas, conheceu Elon antes das filmagens e se tornaram amigos a ponto de Musk fazer uma “ponta” em seu segundo filme.

Apesar de toda admiração e legado que vem construindo, devem existir vários “cadáveres no armário” – expressão usada quando existem (e devem existir mesmo) desvios de caráter, informações falsas, omitidas e toda sorte de acontecimentos que não são de conhecimento do público.

Elon Musk não é uma pessoa fácil e vem colecionando uma série de inimigos e desavenças com ex-funcionários e ex-sócios.  Ele parece se importar com a espécie humana como um todo, sem considerar as vontades e necessidades individuais. E pode ser que esse seja exatamente o tipo de pessoa necessária para tornar real a colonização de Marte.

Para mim, a pior característica de Elon, de longe, é sua completa falta de lealdade ou conexão humana – ex funcionário.

De qualquer forma nossa geração, mais uma vez, tem o privilégio de vivenciar uma época em que um indivíduo está promovendo uma evolução de forma gradual e constante em três indústrias distintas: aeroespacial, automotiva e energética.

Muito mais grandioso e impactante do que Steve Jobs. Só o tempo dirá se isso será verdade.

E mais inovação vem por aí. Musk já começa a divulgar o Hyperloop, a Internet estelar e outras tantas novidades.

Assista a entrevista de Elon Musk para Chris Anderson no TED, realizado em fevereiro de 2013.

 


 

Mas a verdade é: Homer Simpsons é quem está por trás de todas inspirações de Elon Musk, segundo o 12º episódio da 26ª temporada do desenho  😉

Elon Musk no episódio dos Simpsons

Elon Musk no episódio dos Simpsons

 


Elon Musk

Elon Musk: como o CEO Bilionário da Spacex e da Tesla Está Moldando Nosso Futuro

Para saber mais detalhes de como as indústrias aeroespacial, energética e automotiva estão passando por uma revolução, recomendo a leitura do livro “Elon Musk: Tesla, Space-X, and the Quest of a Fantastic Future,” (Elon Musk: como o CEO Bilionário da Spacex e da Tesla Está Moldando Nosso Futuro).

Musk é o empreendedor mais ousado de nosso tempo. Poucos nomes de nossa história se equiparam à sua visão engenhosa e ao seu dinamismo incansável. Ele é o homem por trás do PayPal, da Tesla Motors, da SpaceX e da SolarCity, todas companhias responsáveis por verdadeiras revoluções na indústria e no meio corporativo americanos.

Compre o livro Elon Musk: Tesla, Space-X, and the Quest of a Fantastic Future” na Livraria Cultura.

1 2